Non videmus manticae quod in tergo est

(Escrito na data de postagem)

Sou um homem descontente. Não que exista motivo para ser, na verdade vivo minha melhor versão em demasiados aspectos, contudo sofro sorridentemente manhã após manhã. Não sei dizer se consultas, religiões ou karmas melhorariam minha conduta, acredito que me moldei a ser desta forma.
Descontente não por ausência de sentido, não por fracasso técnico ou profissional, não por ter bens que não são suficientes, mas descontente por não saber apreciar conquistas. Dez ou quinze pequenas vitórias do dia a dia deixo caírem por terra ao ter uma negativa, perco a cabeça por tão pouco, deixo-me estressar por futilidades que não deveriam me afetar, insisto em cultivar o hábito de autossabotagem, enfim, covardia ou perfeccionismo? Chame como quiser…
Não me interesso em nada por frivolidades rotineiras, acanho-me ao transpassar pelos noticiários e com amigos que contam seus dias trabalhados, odeio ouvir as mesmas repetidas palavras ao ouvir de política, mas adoro ouvir as idiotas repetições de um resumo esportivo de futebol.
Sinto falta de tantos detalhes, saudosismo cão que faz pensar que o ímpio passado fora melhor, se pudesse voltar naqueles tempos de duvidosa outrora, com toda certeza deparar-me-ia com tamanha tristeza como a qual sinto nesta contemporaneidade. Ah claro, e outra, que passado? Quem vê pensa no ancião retrógado que habita em mim, bem, há pessoas que já nascem ultrapassadas, Schopenhauer sentir-se-ia orgulhoso de tamanha melancolia, mas que é a vida sem um tanto de desespero? E uma pitada de mesóclises mal aplicadas?
Doí-me muito os projetos aos quais desisti ou fracassei, dor esta muito além da felicidade que deveria sentir por aquilo que já completei. Com versos rimados é muito mais fácil esconder a dor, passar em camuflagem todo o sentimento em forma poética… Ah, que baboseira sem sentido! Autor que não se contesta todo dia não passa de um tolo descabido. Neste momento que vejo a beleza da crônica para com a poesia, poder dar indiretas sem sentido com pitadas de humor indecifrável, ainda assim parecer culto ou de tamanha esperteza, que privilégio! Quem você acha que é mais esperto, um pensador retraído ou ser aquele quem está apreciando a praia e viajando? Adivinhou!
Eu não tenho nada contra a academia e os pensadores de meia tigela da auto-ajuda barata, muito pelo contrário, estou mais a me lixar hoje em dia. Entretanto o que mais me irrita na classe média, que leram um livro do Dostoiévski e tomam vinho do porto, é que se acham no direito de decidir por todos. Não dou mais meu tempo a metido à besta ou engomadinhos, tempo é precioso demais.
Debater sempre será meu prato preferido, contudo com aqueles que não querem acabar contigo no primeiro momento, estão lá pela eslética, pelo prazer genuíno, seja burro ou sábio, só respeito quem tem tolerância, sou tolerante ao máximo com diversas coisas e bruto feito um asno com outras, enfim, descrever temperamento é mais difícil do que pensava, até hoje não encontrei um padrão, mas acho que é mais fácil devagar do que ser prático neste sentido.
Diferente das fábulas ou contos de fada modernos, isso não tem início ou fim, só são palavras soltas, ora fazem sentido, ora não. Às vezes me impressiono ao provar o mesmo prato e sentir outro sabor, acho que isso acontece com sensações e sentimentos, há dias de aptidão para a apreciação, e infelizmente, no restante do tempo, sobra a tristeza e sopros de inaceitação.